Esta é uma crônica do carioca Sérgio Porto (1923-1965), que assinava suas crônicas na Última Hora como Stanislaw Ponte Preta, e cujo apelido era Lalau, numa época em que Lalau significava ele - o Stanislaw Ponte Preta - um escritor boêmio, inteligente, bon vivant e super bem humorado e não um juiz ladrão. Meu pai lia o "Primo Altamirando e eu" e "Tia Zulmira" ("sábia ermitã da Boca do Mato"), personagens criados pelo Lalau que, além disto, tinha uma coluna intitulada "As certinhas do Lalau" na qual estampava sempre fotos das "certinhas", que geralmente eram vedetes do Carlos Machado ou atrizes. Maria Pompeu (a atriz), Carmem Verônica, Anilza Leoni, Iris Bruzzi, que eu saiba, foram algumas delas.
Em 1975, por acaso, conheci uma de suas filhas, a Angela Porto, que foi minha colega de faculdade no IFCS, e onde, ironicamente, o Chefe do Departamento de História era o Prof. Eremildo Viana, segundo o Lalau, um "dedurista da redentora" e o tinha retratado em uma de suas crônicas intitulada "Eremildo e o bidê", na época (da ditadura) em que o Professor era algo como o diretor da Rádio Mec e, corria a lenda, tinha mandado instalar um bidê em seu gabinete (imaginem para que...)
A Angela - filha do "Stanislaw" - atualmente é minha vizinha aqui em Laranjeiras e, embora não nos vejamos com freqüência, é uma amiga que ficou e a quem estimo muito.
Quanto ao bom Lalau, pai da Angela, com certeza, está em bom lugar, em companhia de muita gente boa que conheci - boêmias, honestas, inteligentes e bem humoradas - tomando umas e contando essas e outras...
"POR FORA" DE XANÁS
Stanislaw Ponte Preta
Todo dito popular funciona e ficaria o dito pelo não dito se os ditos ditos não funcionassem, dito o que, acrescento que há um dito que não funciona ou, melhor dito, é um dito que funciona em parte uma vez que, no setor da ignorância, o dito falha, talvez para confirmar outro velho dito: o do não-há-regra-sem-exceção. Digo melhor: o dito mal-de-muitos-consolo-é encerra muita verdade, mas falha quando notamos que ignorância é o que não falta pela aí e, no entanto, ninguém gosta de confessar sua ignorância. Logo, pelo menos aí, o dito dito falha.
Tenho experiência pessoal quanto à má-vontade do próximo para com a própria ignorância, má-vontade esta confirmada diversas vezes em poucos minutos, graças a uma historinha vivida ao lado do escritor Álvaro Moreira, num dia em que fomos almoçar juntos, na cidade.
Já não me lembro qual o motivo do almoço. Lembro-me, isto sim, que íamos caminhando, quando Alvinho disse, em voz alta:
- Leônio Xanás.
- O quê? - perguntei, e Alvinho explicou que Leônio Xanás era o nome do pintor que estava pintando seu apartamento. Até me mostrou um cartãozinho, escrito "Leônio Xanás - Pinturas em Geral - Peça Orçamento".
- Hoje acordei com o nome dele na cabeça. A toda hora digo Leônio Xanás - contava o escritor. - Ainda agorinha, ao entrar no lotação, disse alto "Leônio Xanás" e levei um susto, quando o motorista respondeu: "Passa perto". Ele pensou que eu estava perguntando por determinada rua e foi logo dizendo que passa perto, sem, ao menos, saber que rua era.
Foi aí que nos nasceu a vontade de experimentar a sinceridade do próximo e nos nasceu a certeza de que ninguém gosta de confessar-se ignorante mesmo em relação às coisas mais corriqueiras. Entramos numa farmácia para comprar Alka-Seltzer (pretendíamos tomar vinho no almoço) e Alvinho experimentou de novo, perguntando ao farmacêutico:
- Tem Leônio Xanás?
- Estamos em falta - foi a resposta.
Saímos da farmácia e fomos ao prédio onde tem escritório o editor do Alvinho. No elevador, nova experiência. Desta vez quem perguntou fui eu, dirigindo-me ao cabineiro do elevador:
- Em que andar é o consultório do Dr. Leônio Xanás?
- Ele é médico de quê?
- Das vias urinárias - apressou-se a mentir o amigo, ante a minha titubeada.
Então é no sexto andar - garantiu o cara do elevador, sem o menor remorso. E se não tivéssemos saltado no quarto andar por conta própria, teria nos deixado no sexto a procurar um consultório que não existe.
E assim foi a coisa. Ninguém foi capaz de dizer que não conhecia nenhum Leônio Xanás ou que não sabia o que era Leônio Xanás. Nem mesmo a gerente de uma loja de roupas, que - geralmente - são senhoras de comprovada gentileza. Entramos num elegante magazine do centro da cidade para comprar um lenço de seda para presente. Vimos vários todos bacanérrimos, mas - para continuar a pesquisa - indagamos da vendedora:
- Não tem nenhum da marca Leônio Xanás?
A mocinha pediu que esperássemos um momento, foi até lá dentro e voltou com a prestativa senhora gerente. Esta sorriu e quis saber qual era mesmo a marca:
- Leônio Xanás - repeti, com esta impressionante cara-de-pau que Deus me deu.
Madame voltou a sorrir e respondeu: - Tínhamos, sim, senhor. Mas acabou. Estamos esperando nova remessa.
Foi uma pena não ter. Compramos de outra marca qualquer e fomos almoçar. Foi um almoço simpático com o velho amigo. Lembro-me que, na hora do vinho, quando o garçom trouxe a carta, Alvinho deu uma olhadela e disse, em tom resoluto:
- Queremos uma garrafa de Leônio Xanás tinto.
O garçom fez uma mesura: - O senhor vai me perdoar, doutor. Mas eu não aconselho esse vinho.
Devia ser uma questão de safra, daí aconselhar outro: - O Ferreirinha não serve?
Servia.
É irmãos, mal de muitos consolo é, mas ignorante que existe às pampas, ninguém quer ser.
--------------------------------------------------------
Sérgio Marcus Rangel Porto
(Rio de Janeiro RJ, 1923 - idem, 1968)
Começou a escrever crônicas em 1951, no Diário Carioca. Foi a partir dessa colaboração que passou a assinar sob o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. Inspirado no personagem Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, esse é o pseudônimo pelo qual ficou famoso. Em 1955, estreou no jornal Última Hora, onde criou seus personagens e ganhou rápida popularidade. Além das crônicas, escreveu reportagens para jornais e revistas, scripts para cinema, teatro e televisão e fez traduções de textos teatrais. Publicou sete livros de crônicas, entre eles os três volumes do Festival de Besteiras que Assola o País. Fez parte de um grupo de intelectuais integrado por José Lins do Rego, Rubem Braga e Clarice Lispector, entre muitos outros. Também foi bancário, estudante de arquitetura (não concluiu o curso) e era fanático por futebol. O tema recorrente de suas crônicas são os dramas cotidianos da vida carioca, boa parte deles extraídos de notícias de jornal. Sempre pela ótica do humor e da sátira, gostava de criar comparações enfáticas, como "mais inchada que cabeça de botafoguense" ou "mais suado que o marcador do Pelé". Entre os tipos que celebrizou estão a Tia Zulmira, "sábia ermitã da Boca do Mato", o doutor Data Vênia, pródigo em lugares-comuns, e o gozador Primo Altamirando.
in Itaú Cultural
dito por :: Li
ou aqui...(0)
Palavras Tortas - 5:03 PM